#clandestina24

21 anos, São Paulo.

Na maioria das vezes, tenho a sensação que nunca aconteceu ou que já faz um tempão, porém, lembro nitidamente de tudo. Conheci um cara e nos demos super bem. Ele tinha 26 anos e eu 21. Era o cara “perfeito” dentro das minhas expectativas. No dia em que nos vimos pela primeira vez, já começamos a namorar. Foi tudo tão mágico… Ele era o homem que todas queriam. Morávamos em bairros muito distantes, então, no terceiro dia, eu já estava “acampada” na casa dele, vivendo a vida dele.

Tudo aconteceu rápido demais. Uma semana depois, começaram as confusões. O pacote do namoro continha uma ex-mulher e uma filha de 6 anos, e eu, cega de amor – sim amor, porque, no primeiro dia, ele disse que eu era o amor da vida dele e que nunca se sentiu tão bem igual se sentia ao meu lado – aceitei.

Ele dizia que eu era a pessoa com quem ele ia construir a verdadeira família, casar e ter filhos. Sempre sonhei em ser independente, nunca pensei em casar, ter filhos, penso em viajar, trabalhar e morar sozinha. Mas, pela primeira vez, me iludi com alguém. Transávamos sem nos prevenir, e um dia ele disse que, se eu tivesse um filho dele, estaria presa a ele pra sempre. Eu achava graça e pensava “nunca vou engravidar, afinal tenho endometriose”.

Pois bem, comecei a sentir que estava grávida. Intuição, acho. Sei lá, porque nem estava atrasada, e ele ficava me dizendo “minha futura mamãe, te amo”. Até que, um belo dia, ele acordou e, às 8 da manhã, eu era a mulher da vida dele, mas, já às 10 horas, já se dizia confuso e não sabia o que queria da vida, começou a dizer que se sentia sufocado…

Meu mundo desabou por inteiro. Eu não acreditava no que estava ouvindo. Eu não conseguia acreditar que o homem da minha vida estava falando aquilo, então pensei que tudo ia passar, mas não passou. Muitas coisas aconteceram até que fiz teste de farmácia e deu positivo. Fiz outro, e positivo novamente.

Então avisei a ele e a resposta foi: “Se vira, dá um jeito. Eu não quero ser pai de novo, não estou preparado”. “Se levar adiante, vai ser mãe solteira”. E por aí foram vários insultos… Me tratou como um lixo, aquele amor todo sumiu.

Eu perdoei e pensei: “ele tá assustado, logo passa”. E passou, até ele me propor: “se você me ama, tira e seremos felizes pra sempre”. Isso foi horrível. Sabe, não é assim, nada é garantido na vida. Eu disse que não iria interromper, não por ele e sim por mim. Fiz o exame de sangue e pronto, confirmado: um mês de gestação.

Contei para minha mãe. Eu jamais queria decepcioná-la, mas aconteceu, e ela esteve do meu lado em tudo. Então ligamos para ele e nada. Ele não estava nem aí, então eu e minha mãe fomos tentar interromper. Por métodos naturais, nada aconteceu, então minha tia me passou um contato e marquei uma conversa. Uma das pessoas de lá me informou tudo como seria e me ajudou a tomar a decisão com mais precisão.

Minha mãe era contra, mas disse que me apoiaria, pois não dava para levar adiante aquela situação, já que eu estaria totalmente sozinha, minha gravidez era de risco e eu estava desempregada. Liguei para o rapaz e disse o valor que custava para fazer a interrupção, por volta de 3 mil, e ele disse: “hahaha, se vira, eu não vou participar disso”. Ou seja: antes, ele queria, mas, quando teve que mexer no bolso dele, aí pulou fora.

Consegui que o médico me cobrasse apenas o valor dos medicamentos que seriam usados. Mesmo assim, liguei para o pai e para o irmão dele e falei da minha decisão. Eles eram contra, porém, arcaram com a despesa. A família dele tentou me convencer de não fazer isso, mas eu apenas pensava: “não sei se tá certo ou errado, mas, neste momento, é necessário”.

Fui na primeira consulta e marquei para dali a 3 dias. Liguei para ele pra avisar, e ele me tratou muito mal. Disse que não queria mais nenhum tipo de vínculo comigo, e que, se o problema era culpa, iria sentir junto comigo. Ele virou um monstro, aos meus olhos.

E lá estava eu na clínica, com minha mãe me acompanhando, mais ansiosa que eu. Tive medo de morrer, e dizia apenas “mãe, se algo acontecer, não se sinta culpada de nada”. Porém, o processo durou 10 minutos. Era um lugar muito limpo, tudo muito profissional. Fui sedada e não senti nada. Quando acordei, já estava em uma sala de recuperação com um belo café da manhã.

Tive uma crise de choro apenas no momento. Achei que me sentiria culpada, que depois iria ter conflitos de sentimentos, pois eu pensava: “vão me julgar, afinal, quantas pessoas não criam seus filhos sem pai?”. Mas o meu problema não era esse, envolvia “N” situações, e eu não sinto culpa nenhuma. Hoje, sei que fiz a escolha certa e não culpo ninguém pela minha escolha. Às vezes, me pego chorando quando leio essas historinhas sobre aborto, com o neném falando, e fico imaginando “será que é assim mesmo?”.

Fui na igreja e achei que iria desabar, devido ao meu lado religioso, mas nada aconteceu. Hoje trabalho e estudo tranquilamente, mas levo uma lição disso tudo. Sim, estou mais fria, não acredito no que falam. Sou a favor da interrupção sim, afinal, é meu corpo, minha vida e meu destino que serão modificados.

Mas por que ter que pagar um valor alto para se ter respeito e não ser julgada? Não está certo. Óbvio que devemos ter cautela, não é porque lutamos para que seja legalizado que as mulheres devem sair por aí sem se prevenirem. Junto com a legalização deve vir a educação sexual!

Me considero uma clandestina e falo sobre este assunto sem problema algum. Aqui em casa, apenas minha mãe sabe. Não tocamos no assunto, mas ela não me julga em nada. Depois que interrompi, descobri que minha ex-sogra falou que eu dei um golpe. Fiquei super decepcionada, mas só quem realmente está ao meu lado sabe o que passei, e não preciso provar nada para ninguém. O rapaz? Ele me procura às vezes, diz que sou dele. Descobri que toda aquela perfeição era apenas um teatrinho, e ele não vale nada. Hoje, não sinto nada por ele e quero distância.

Ele não se importou nem um pouco em saber como eu estava depois do ocorrido. Apenas se importou em ficar novamente comigo. Desse tipo, estou passando longe. De tudo isso, tirei uma bela lição de vida, e hoje tenho certeza que, sobre tudo relacionado a mim, apenas eu posso decidir o que fazer, pois serei eu quem vai sentir as maiores consequências. Quero agradecer a todas que estão lendo este depoimento, espero ter ajudado de alguma maneira!

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