#clandestina26

Sorocaba (SP).

Já fazia um tempo que minha menstruação não me vinha, até que um sangramento de poucos dias e fora de hora chegou. Procurei um ginecologista para que pudesse me consultar e descobrir o que estava havendo, realizar algum teste confiável de gravidez, fazer exames se fossem necessários.

Já no consultório, o médico me perguntou com quantos parceiros eu já havia transado somente neste ano. Após a resposta, ele, sisudo, disse que o saudável seria transar com apenas cinco parceiros anualmente. Desde então, a conversa tomou um rumo duro, repleto de sermões e olhares enojados. Até que ele me enviou para um exame de sangue e disse que, se o resultado de tal exame fosse POSITIVO, eu voltaria lá para começarmos o pré-natal.

Pré-natal? Eu não quero ser mãe agora. Tenho planos traçados, não tenho dinheiro para poder criar um filho agora. Eu simplesmente lhe disse que, se o resultado fosse positivo, eu procuraria um método de aborto. Aí, o estopim. Enfurecido, enojado, me disse que eu teria de arcar com as consequências de ter feito sexo sem proteção.

O preconceito e a repressão também estão dentro dos consultórios médicos, encrustados nas cabeças dos tais profissionais, que ainda lidam com a questão de maneira totalmente arcaica. A gravidez há de ser, sim, uma decisão nossa. De nós, mulheres. De nós, casais. De acordo com o desejo de ser mãe, de acordo com nossos planos e nossas condições.

Após discutir de forma ríspida este assunto com o médico, simplesmente fechei a porta e fui embora pensando. Pensando em todo o apoio que nos falta, em todos os diálogos que não acontecem e nas situações de riscos em que somos colocadas – desesperadas – em busca de uma solução.

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