#clandestina73

Negra, 21 anos, Teixeira de Freitas (Bahia).

Descobri que estava grávida em Abril deste ano, havia começado a minha pesquisa de TCC, meu mundo vi desmoronar. Nunca desejei ser mãe, até então quando me vi nessa situação não pensei em continuar com a gestação, meu companheiro disse que a escolha que eu fizesse seria a melhor e fizemos. Foram 4 anos tomando anticoncepcionais e eles pararam de fazer “efeitos”.

Logo procurei por uma amiga que já havia feito um aborto com o Cytotec, ela me negou ajuda alegando que por eu ser uma mulher casada e com uma casa teria sim condições em ter um filho, logo fomos procurar em sites de venda do remédio, apostamos na sorte e entramos em contato com um vendedor, depositamos 800,00 e o cara simplesmente sumiu, pensamos no golpe e entramos em desespero, depois de 3 dias sem notícias nenhuma do vendedor, conseguimos um contato da minha cidade que indicaram fazer o procedimento via intravaginal mas não funcionou depois de 24h o remédio saiu todo da minha vagina , no mesmo dia recebi a entrega do suposto golpista, tive muito medo, quem iria me garantir que esses remédios funcionariam também?

Eu já não saia da cama, choros constantes, socos que eu dava na minha barriga, nem me olhava mais no espelho. Esperamos uma semana e fizemos novamente o procedimento desta vez 4 remédios na boca e depois de 4 horas + 2, em menos de 10 minutos após ter colocado a primeira dosagem com os 4 comprimidos comecei a sentir cólicas e depois as contratações foram aumentando, fizemos tudo isso sozinhos em casa, nunca imaginei que aos meus 21 anos me tornaria uma mulher tão forte depois do aborto.

Por ser uma mulher negra, vindo da periferia sei o quanto o aborto clandestino mata nossas manas todos os dias, o sistema faz com que apenas as mulheres ricas possam fazer com segurança enquanto nós, pretas e periféricas não temos assistência psicológicas muito menos financeira. A legalização do aborto fará com que as manas do meu bairro, da minha cidade possam tomar suas decisões.

As minhas amigas que tiveram filhos aos 15 e hoje, sem seus respectivos companheiros, vivem sozinhas com seus filhos nos braços sem ensino médio completo sem um trabalho. Poderia ter sido eu aos 15, mas fui aos 21.

#clandestina72

Branca, 21 anos, São Paulo.

Eu descobri que estava grávida com 5 semanas.

Minha menstruação havia atrasado alguns dias e eu estava bem nervosa, visto que meu ciclo é sempre regulado. Tinha passado por muito estresse e ansiedade recente e tentei transferir a causa do atraso a isso…

Tenho 21 anos e meu namorado também, estudamos e não trabalhamos, ainda estamos à procura de uma oportunidade no mercado.

Como eu passo mal com anticoncepcional, nós utilizávamos preservativos ou até coito interrompido.

Mas, quando o atraso chegou a 6 dias, eu e meu namorado resolvemos fazer o teste de farmácia, que imediatamente deu positivo. Fiquei desesperada e permaneci no banheiro por um tempo, anestesiada, tentando digerir toda a informação… Abri a porta e comuniquei a ele o resultado, já aos prantos de tanto chorar. Ele logo tentou me acalmar e neste momento ficamos em choque por uns minutos.

Somos dependentes, não temos nada, não teria contexto para inserir uma criança ali… Não tínhamos dinheiro nem pra nos sustentar direito, quanto mais sermos responsáveis pelo desenvolvimento de um ser humano…

Fiquei em pânico.

Conversamos sobre o que fazer e, visto o contexto, decidimos procurar um meio de interromper a gravidez. Não queríamos ter um filho pra passar fome, não ter onde morar, não ter acesso à saúde e uma educação de qualidade…

Enfim, quando decidimos abortar, começamos a pesquisar na internet depoimentos de outras mulheres que abortaram, onde conseguir etc.

Primeiramente, eu iria utilizar o aborto farmacológico, que pediria à uma ONG, mas como poderia demorar e também fiquei receosa de não ser 100% eficaz, comecei a procurar abortos realizados em clínicas.

Milhões e milhões de pensamentos passavam na minha cabeça diariamente, 24h por dia. Milhões de sensações. Picos de humor, muita dor. Medo. Mas, no fundo, estava certa do que fazer.

Fomos a um médico ginecologista que escolhi a dedo, na cidade de São Paulo, para contar o meu caso, o qual me recomendou uma clínica que poderia me ajudar, passando endereço, valores, etc.

Não tínhamos o dinheiro e eu cogitei ir em uma clínica clandestina mais barata pelo desespero, porém meu namorado não concordou e pediu emprestado o dinheiro a um amigo, para que tudo fosse feito com segurança.

Realizei o aborto com um mês de gestação nessa clínica de alto padrão indicada pelo médico, também em São Paulo, e fui extremamente bem tratada. Todos os envolvidos conversaram e me explicaram com calma como tudo seria feito.

O procedimento custou R$4.500 e foi tranquilo. Fiquei em jejum por 6 horas, fui sedada e dormi durante todo o procedimento. Em seguida, fiquei em observação por aproximadamente 1 hora e, nesse período, o médico e a enfermeira passavam para ver como eu estava, me dar o que comer e todo o suporte necessário. Senti cólica e algumas dores na região abdominal.

Essas dores duraram cerca de 5 dias, junto com o sangramento pós-aborto.

Após dois dias que realizei o procedimento, fui até a clínica do médico inicial para fazer um ultrassom e ver se ocorreu tudo bem.

Os dois médicos me acolheram e ofereceram todo o suporte de retornar e entrar em contato caso não estivesse me sentindo bem ou tivesse alguma dúvida, o que me deu muita segurança.

Já faz um tempo que tomei essa decisão e, apesar dos apesares, não me arrependo. Embora eu tenha sofrido muito psicologicamente, e ainda sofro, nós não teríamos condições financeiras e psicológicas para que eu desse continuidade à gestação.

Me peguei inúmeras vezes pedindo desculpas a minha barriga de um mês que nem existia, mas tenho certeza que tomei a decisão certa para que, no futuro, quando eu estiver pronta, ele venha e nós possamos proporcionar uma vida maravilhosa a ele(a).

Espero que minha história ajude outras mulheres que estão em desespero no momento.

Sou a favor da legalização do aborto por que acho que cada um tem sua história e suas condições de vida para decidir sobre o que é melhor para si e para as pessoas que se ama.

#clandestina71

Branca, 15 anos, São Vicente.

Fui a uma festa e transei com um rapaz que não conhecia. Ele tirou a camisinha e eu só percebi quando terminou. Não havia pílula do dia seguinte na época. Descobri a gravidez tarde, já que minha menstruação verá desregrada. Comecei a vomitar. Enfiava objetos na vagina para tentar abortar. Pedi dinheiro à família com desculpas esfarrapadas. Comprei citotec e não funcionou. Entrei em pânico. Contei pra minha avó. Ela contou pra minha mãe que me levou no médico. Ele disse que eu tinha pouco tempo pra fazer o procedimento. Marcamos pro dia seguinte. Método aspiração. A mãe fez empréstimo no banco. Na hora me senti aliviada. Mas a família nunca abordou o assunto. Era como se nada tivesse acontecido. Isso doeu. Queria que alguém me perguntasse como eu estava me sentindo. Nunca ninguém perguntou nada, nem quem era o pai. Eu não saberia dizer. Fui criada sem pai e não queria que meu filho passasse por isso. Nunca me casei, não tive filhos. Hoje tenho 43 anos. O aborto dói. Não há como esquecer. Mas fiz o que tinha de ser feito. Sou a favor do aborto legal e seguro. Sou a favor para que todas as mulheres possam ter o mesmo direito que já é dado para quem pode pagar.

#clandestina70

Branca, 28 anos, Curitiba.

Descobri que estava grávida com 4 semanas, meu companheiro estava a caminho de outra cidade a trabalho e eu estava sozinha em casa, em pânico no banheiro, olhando aquelas duas linhas do teste de farmácia. Tentando acreditar que era mentira, liguei pra ele em prantos. As horas que demoraram pra ele chegar até mim foram as horas mais sofridas de todo o processo, estava com medo de qual seria a nossa decisão, qualquer que fosse ela, ter ou não aquele filho. Em pouco tempo de conversa, decidimos não romantizar aquele momento, e procurar a melhor maneira de interromper aquela gravidez. Apesar de todo nosso companheirismo e conversas abertas, passei aquela noite em claro, bem como as outras 5, nas quais minha variação de humor me afetou muito. Chorava, me sentia sozinha, abandonada e em alguns momentos me perguntava se estava fazendo a escolha certa, afinal, ter um filho de quem se ama é algo muito romântico. Comecei o protocolo de aborto com ervas, amparada por uma rede de mulheres, no segundo dia já, bem como solicitei junto a uma ONG os medicamentos para fazer o aborto farmacológico em casa. A ansiedade era indescritível, queria apenas que tudo acabasse, que meu corpo não estivesse passando por aquelas transformações, pelo cansaço, enjoo, baixa libido. Estava de férias, e passei muitos dias na cama, sentindo cada sensação que aquela condição trazia pra mim, era insano.

Tive o apoio de uma grande amiga e obviamente do meu companheiro, mas havia uma dor que era só minha.

Em exatos 7 dias corridos os medicamentos chegaram em minha casa, fiz o uso combinado de mifepristona e misoprostol. Tomei o mifepristona em um sábado a tarde, 24 horas depois já estava com cólicas e sangramento,quando tomei os 4 compridos de misoprostol já estava em processo de aborto. Antes mesmo de engolir os comprimidos já estava com fortes cólicas e dor pélvica que iam e vinham a cada 10 minutos, duravam alguns minutos. Tomei um ibuprofeno, e assim que ele fez efeito as cólicas ficaram muito tranquilas, levantei da cama, tomei um banho, o sangramento era bem leve. Fiz janta com meu companheiro, sentei à mesa, conversei, espaireci. Perto das 10 horas da noite fui me preparar para dormir, sentei no vaso para trocar o absorvente, quando levantei vi o saco gestacional boiando. Me senti leve, feliz e aliviada, voltei para o quarto sorrindo e dormi tranquila pela primeira vez. O segundo dia foi de preocupação, fui ler alguns depoimentos e notei que o processo havia sido muito tranquilo para mim. Não tive diarreia, enjoos ou mesmo sangramento intenso. Falei com as mulheres da ONG,que me acalmaram, dizendo que não era anormal que fosse assim tão tranquilo. O sangramento intensificou 3 dias depois, mas já havia voltado a usar meu coletor menstrual e isso nem me incomodou. Dois dias depois havia voltado a ser a pessoa que era antes, estava feliz novamente. Andava na rua querendo gritar pro mundo que interromper uma gestação era SIM uma opção viável, e que a união de várias mulheres me proporcionaram ter esse privilégio.

Essa experiência me mudou muito como mulher, e me fez sentir ainda mais ligada ao feminismo e às mulheres ao meu redor. Agradeço a cada mina que me ajudou, aconselhou e apoio durante esse processo.

Pra mim o aborto farmacológico foi um processo muito rápido, com dores tranquilas. Sei que não é assim para todas as mulheres, por isso sou muito grata e me sinto extremamente privilegiada.

Toda mulher deve ter direito à escolha sobre o próprio corpo. Aborto de poucas semanas é um processo seguro e eficaz.

#clandestina69

Branca, 30 anos, Rio de Janeiro.

Percebi que havia alguma coisa diferente no meu corpo (odores, vontades, humor) dois dias depois de ter tomado pílula do dia seguinte. Comecei a ficar mais atenta aos sinais, mas imaginei que pudesse ser tudo efeito da PDS. Quatro semanas depois fiz um teste de farmácia, o resultado foi um falso negativo. Com mais duas semanas tive um sangramento mas a menstruação não desceu. Fiz um novo teste de farmácia, positivo.

Levei dois dias para fazer o exame de sangue e mais dois para conseguir fazer o Ultrassom, estava grávida de quase 7 semanas.
Nesse dia encontrei meu parceiro. Nós estamos juntos há pouco tempo, eu não sabia qual era a posição dele em relação ao aborto e tive dúvidas sobre contar ou não. Decidi contar e falei claramente que não queria um filho agora. Ele concordou, não era a hora pra mim, pra ele ou pra gente.

Pensei inicialmente em fazer o procedimento em uma clínica, mas a única que consegui indicação cobrava cinco mil reais. Surgiu então a indicação de um grupo feminista de SP que fornece os medicamentos (mifepristone e misoprostol – citotec). Decidi entrar em contato principalmente por acreditar na importância desse trabalho que elas fazem de forma voluntária e sem fins lucrativos.

Estava ansiosa, queria mandar mensagem no facebook, no whatsapp, email, sinal de fumaça, pombo correio… Mas eu acredito cegamente no movimento feminista e a indicação tinha vindo da feminista mais coerente que eu já conheci, então eu segurei a ansiedade e esperei, sabendo o risco que elas correm em nos ajudar. Demorou alguns dias para receber uma ligação de uma delas, falamos muito pouco no telefone e marcamos apenas que seria no próximo domingo. O próximo contato foi apenas no dia, um SMS com o horário e local.

Havia mais duas mulheres nesse encontro, além da que iria nos dar os remédios. Tivemos uma longa conversa para esclarecer o processo, a forma de tomar os remédios, verificar se estávamos todas seguras da decisão e assegurar que era uma decisão tomada por nós e não por nossos parceiros ou qualquer outra pessoa. Saímos de lá mais tranquilas e com a solução nas mãos.

O kit completo (um comprimido de Mifepristone e seis de Misoprostol) custou R$250.

Voltei ao Rio de Janeiro e fui no dia seguinte para a casa de uma amiga. Já havia tomado o Mifepristone no dia anterior. Tomei os comprimidos citotec (4 deles de forma sublingual) e cerca de meia hora depois tive muita cólica e um sangramento leve. Duas horas depois tive muito enjôo, vomitei uma parte do jantar e as cólicas pararam. Tive muito medo de ter cortado o efeito do remédio. Após três horas deveria tomar mais dois comprimidos, então tomei muita água para que, se houvesse mais enjôo, vomitasse antes de tomar os comprimidos finais. Vomitei muito, esperei mais um pouco e tomei os outros dois, também de forma sublingual. Tive mais um pouco de cólica, bem mais leve. Era uma da manhã e eu peguei no sono.

Acordei e não senti nada, não tinha mais nada de sangramento no absorvente ou na toalha. Levantei, fui ao banheiro e saiu algo parecido com um coágulo muito grande. Não cheguei a olhar muito, puxei a descarga e sabia que já estava resolvido. Hoje faz uma semana, tive sangramento típico de menstruação nesse tempo, vou fazer um novo Ultrassom para ver se ficou algum vestígio em dois dias.

Durante todo o processo muitas pessoas me falavam que uma hora eu iria cair na real e deixar de estar tão tranquila, tão segura. Fiquei esperando esse momento chegar… Quando peguei os comprimidos, quando tomei o primeiro, quando tomei os 4 primeiros citotecs, quando vi a placenta cair, pensava “agora vem o baque!”… Ainda não chegou e acho que não vai chegar.

Acho que várias coisas me ajudaram a não ter esse “peso na consciência”:
Nunca quis ter filhos, estou numa fase da vida focada no lado profissional, sou feminista e acredito no direito de escolha da mulher.

Já tive que debater várias vezes sobre o direito ao aborto seguro com muitas pessoas, e isso me ajudou de certa forma a ter convicção no que eu havia decidido, apesar de ter ouvido de todos (médicos, amigos, família) que uma hora baixa uma luz divina e floresce em qualquer mulher grávida o instinto maternal e a vontade de bater fotos fazendo carinho na barriga.

Isso não aconteceu comigo exatamente por ter segurança de que, nesse momento, um filho não cabe na minha vida.

O trabalho da mulher que me forneceu os remédios também foi essencial, não apenas por ter dado acesso à medicação mas por saber que temos com quem contar, que JUNTAS SOMOS MAIS FORTES. Saber que eu estava fazendo isso com o apoio de mulheres feministas me deixou segura em relação ao procedimento, à procedência dos remédios, à minha decisão.

Minha maior preocupação depois disso tudo foi exatamente o contrário. Comecei a pensar que eu devia ter algum problema. Se todas as mulheres inclusive as que fizeram aborto me diziam que eu ia ficar triste, eu devia ter algum problema, alguma sociopatia ou algo do tipo pra não ter tido dúvida nenhuma, tristeza nenhuma.

Estava me sentindo DESUMANA.

Falei com uma amiga sobre isso e a resposta dela foi simples: “Você fez a coisa certa, por isso não está com peso. Nem tem que ter.”

Ainda está tudo muito recente, mas estou tranquila, convicta de que fiz o que era melhor pra mim. Tenho muita sorte de ter as pessoas que me ajudaram na minha vida, a grana para a viagem, o apoio do meu parceiro… Isso tudo contribuiu para que fosse tudo tranquilo.

Sou a favor da descriminalização e da legalização do aborto.

A mulher grávida é a única que pode decidir se está disposta a gerar um filho e se tem condições pra isso. Mesmo quando o parceiro diz que quer ter o filho, sabemos que na grande maioria das vezes a responsabilidade na criação de uma criança é da mulher. Não é do Estado, não é do parceiro, não é da vó, da vizinha, do padeiro. É da mulher grávida.

O direito ao aborto legal, seguro e gratuito deve ser garantido por questões de saúde pública. O aborto acontece na ilegalidade e custa caro, qualquer que seja o método escolhido, resultando em mortes, abusos psicológicos na rede de saúde pública em casos de complicações, problemas conjugais, entre tantas outras dificuldades que não existiriam se reconhecêssemos o direito da mulher de decidir sobre o próprio corpo.

Quando vemos as estatísticas de países onde o aborto é legal entendemos a importância da descriminalização e da legalização. Nesses países o número de mortes devido a complicações é quase nulo, e o número de mulheres que abortam é menor que nos países onde o aborto é ilegal e criminalizado.

A legalização vem acompanhada de políticas de planejamento familiar, suporte financeiro e psicológico. Mulheres sem condições de gerar um filho tem o apoio necessário para poder ter a criança caso queiram, mulheres que não querem ter um filho também recebem o mesmo tratamento.

Não tenho filhos ainda, mas penso em ter no futuro caso tenha condições financeiras e emocionais para isso.

Não sou praticante de nenhuma religião, mas tenho um lado conectado com o espiritual.

#clandestina68

Branca, 22 anos.

Quando descobri que estava grávida imediatamente eu senti que não queria ser mãe naquele momento.

Eu era solteira, tinha acabado de mudar de cidade e estado para estudar e não queria abrir mão dessa oportunidade. Falei com uma amiga que tinha contatos na minha cidade natal e demorou algumas semanas para os comprimidos chegarem. Eu tomei, foi muito tranquilo, nos dia seguinte sangrei um pouco e foi só.

Tempos depois veio a menstruação, mas diferente, apenas uma borra escura. Não dei bola. Eu estava feliz por ter sido tão simples. Ledo engano…o remédio era falso. Continuei com sintomas de gravidez, enjôo, e o desespero voltou, falei com minha amiga para conseguir mais comprimidos, mas dessa vez de uma fonte confiável. O pai da criança, era um cara que eu tinha acabado de conhecer, não tínhamos nada sério, estávamos saindo as vezes. Conversamos sobre a situação e ele queria assumir, não era a favor do aborto. Mas me respeitou na minha decisão e ajudou a pagar o comprimido da primeira vez.

Na segunda vez eu comprei sozinha, pois fiquei com medo que ele tentasse me dissuadir da ideia.

Me endividei por dois anos, pois tive que usar a grana pra pagar a faculdade para bancar o remédio.

Bom, nessa segunda vez que tomei minhas duas amigas que moravam comigo me apoiaram na minha decisão e iam cuidar de mim durante o processo.

Acontece que dessa vez os comprimidos eram verdadeiros, mas já tinha passado certo tempo desde que descobri que estava grávida. Comecei a sentir dores insuportáveis. Eu não queria ir para o hospital, se fosse depender de mim, eu ia morrer ali mesmo. Mas o destino não quis assim e um amigo chegou na nossa casa naquele momento e me levou para o hospital a força.

Chegando lá fui tratada muito mal.

Eu estava vomitando, sentindo dores fortíssimas, me mandaram para a maternidade. Corre para maternidade. Chego lá e a médica plantonista pergunta o que está acontecendo. Falo dos comprimidos e aí meu inferno realmente começa.

Eu fui totalmente maltratada e humilhada pela médica e equipe de enfermagem. Porque o feto estava vivo. Quando eu soube daquilo eu só queria morrer. Foi horrível, imaginem meu psicológico nessa hora, eu seria obrigada a ter um filho que eu não desejava de maneira alguma e a culpa de estar fazendo aquilo, eles me faziam sentir muito muito culpada. Me mandaram tomar um monte de água para o ultrassom e algumas horas depois o feto não resistiu.

Foi doloroso, solitário, muito, muito sofrido.

Nesse momento e apenas nesse momento uma enfermeira foi muito carinhosa e gentil comigo, me confortou e não me julgou em nenhum momento. Lembro do rosto dela até hoje. Fiquei uma semana no hospital. Ninguém soube desse desfecho trágico, além das minhas duas amigas e o meu amigo que me levou ao hospital. Minha família mora longe e na faculdade disseram que eu estava doente.

Então eu meio que joguei essa história pra baixo do tapete por alguns bons anos. Tempos depois, confesso que por mudar minha forma de ver a vida, ela meio que me assombrava. Foi muito sofrido.

Tudo isso poderia ter sido evitado se eu tivesse acesso a um acolhimento diferente, a um procedimento seguro.

Eu quase morri, de verdade.

Claro que eu deveria ter sido mais prudente e ter me protegido, mas não vou me martirizar por conta de um erro que não foi só meu. Hoje se eu engravidasse, assumiria pois tenho condições para ser mãe, já se passaram muitos anos. No entanto, filhos não estão nos meus planos por enquanto, por isso tenho procurado desde então não dar bobeira na contracepção, sempre me cuidando, porque se depender dos homens, a gente sabe que eles não ligam pra isso.

As mulheres devem decidir por suas vidas.